O congestionamento que afeta portos de todo mundo e que obrigou, recentemente, vários navios porta-contêineres a se desviarem da Inglaterra para portos europeus vai durar mais de seis a nove meses – disse a Associação de Portos Britânicos (BPA, na sigla em inglês) à AFP nesta quarta-feira (13).

Causada pelas perturbações do tráfego mundial decorrentes da pandemia da covid-19, a situação já dura “mais de um ano” e “continuará por mais seis, ou nove, meses”, afirmou o diretor de Assuntos Externos do BPA, Mark Simmonds.

Vários porta-contêineres gigantes repletos de mercadorias para o Natal tiveram de ser desviados de Felixstowe, o maior porto de contêineres britânico, na costa leste, para portos europeus, devido ao congestionamento em seus terminais, anunciou a gigante de navegação Maersk, na terça-feira (12).

Estes grandes cargueiros atracam em outros portos, como Roterdã, ou Antuérpia, e depois as mercadorias são transferidas para navios menores que as levam de volta para Felixstowe.

O porto inglês, que movimenta 36% da carga marítima do Reino Unido, é “um dos 3-4 portos mais afetados do mundo”, segundo o Maersk.

Este congestionamento não é específico do Reino Unido, afirma a BPA, que registra tempos de espera na entrada de seus terminais “muito abaixo” da média mundial de “aproximadamente uma semana”.

A situação “é muito pior na China e nos Estados Unidos”, afirma Simmonds.

E os portos, ele explica, “estão todos conectados”: um navio que sai da China, ou do Oriente Médio, uma semana depois do previsto e acumula atrasos em suas escalas dificulta para os portos a organização do planejamento de sua chegada ao Reino Unido.

As lojas “começam a encher seus estoques para o Natal em setembro-outubro”, o que cria um pico de transporte nesta época do ano, mas todas as mercadorias poderão ser importadas a tempo, disse Simmonds.

No caso do Reino Unido, a situação se vê agravada pela significativa falta de caminhoneiros – 100 mil, segundo funcionários do setor. Isso faz os contêineres se acumularem nos portos, já que não há motoristas para transportá-los.

“Está claro que há um problema complexo, sobretudo, com os caminhoneiros, não apenas aqui, mas em toda Europa”, declarou o copresidente do Partido Conservador no poder Oliver Dowden, em entrevista à Sky News, nesta quarta-feira (13).

O governo britânico está “trabalhando para resolver esses problemas”, garantiu, declarando-se “convencido de que as pessoas poderão comprar seus brinquedos no Natal”.

 

Peru de Natal é ameaçado no Reino Unido pela falta de mão de obra

Na fazenda “Flower Farm”, no coração do interior da Inglaterra, reina a preocupação. Em um contexto generalizado de falta de mão de obra, seu proprietário Patrick Deeley ainda não possui pessoal suficiente para distribuir os perus de Natal.

“Não sei se vou encontrar o pessoal necessário para o trabalho antes das festas, a pressão vai ser forte”, explica à AFP este fazendeiro de Surrey, no sul do Reino Unido.

Já deveria contar agora com 12 trabalhadores temporários para meados de dezembro que o ajudem a preparar, empacotar e entregar as aves no Natal.

Há mais de 15 anos, contratava trabalhadores que vinham da União Europeia, mas neste ano não conseguiu encontrar nenhum, explica.

Se muitos trabalhadores abandonaram o setor ou até o país durante as paralisações impostas pela pandemia, Deely se declara convencido de que “o Brexit também é um fator importante”. “Porque uma das consequências é a perda maciça de mão de obra” europeia, afirma.

O Brexit, que entrou plenamente em vigor em 1º de janeiro, dificulta a entrada de trabalhadores da União Europeia, que agora precisam obter um visto de trabalho caro.

Diante da escassez de mão de obra no setor de aves, alguns fazendeiros multiplicaram os anúncios de trabalho, mas os candidatos são escassos.

“Não é a coisa mais glamourosa do mundo, é um trabalho duro, é a agricultura, tem que trabalhar os sete dias da semana”, explica Mark Gorton, que se dedica à criação de perus em Norfolk, no leste da Inglaterra, e hoje em dia não possui um único trabalhador temporário, quando costumava ter entre 300 e 400 todo ano.

“Estamos a seis semanas de começar a preparar os perus para o mercado natalino e, no momento, não temos trabalhadores”, afirma com preocupação.

 

 “Trabalhar 18-19 horas diárias”

Devido à escassez de mão de obra, alguns fazendeiros se viram obrigados a produzir menos perus este ano e os supermercados reduziram seus pedidos.

“A quantidade de perus se reduziu consideravelmente”, disse Deely, “não importa se você tem 10 perus ou 20.000, o problema é basicamente o mesmo: há uma enorme escassez de mão de obra qualificada”.

Diante das notícias sobre essa situação, os consumidores se apressam e a demanda aumenta com muita antecedência.

Segundo a associação de perus frescos de fazenda tradicional, que reúne 40 fazendas, a maioria de seus membros registrou um aumento significativo dos pedidos em comparação com este período do ano passado. Algumas fazendas afirmaram inclusive que os pedidos quintuplicaram.

O risco agora é que os preços do peru disparem. “Acho que as pessoas, infelizmente, verão um aumento no preço do produto”, disse Deely.

Como a avicultura é um setor chave da economia britânica, o governo decidiu conceder 5.500 vistos excepcionais de três meses para atrair trabalhadores temporários, mas os fazendeiros temem que isso não será suficiente para virar o jogo.

“Deixaria minha casa, meu país, meu trabalho, minha segurança, só para vir ajudar um país que disse que não me quer? Eu não faria isso”, afirma Patrick indignado. “Vejo que as consequências do Brexit são enormes, colossais, e uma consequência é que as pessoas com quem falei se sentem rejeitadas”, explica.

Peru de Natal é ameaçado no Reino Unido pela falta de mão de obra
Foto: Reprodução/AFP

 

Fonte: UOL
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